Prezado Deus do Amor,
Venho através desta carta, mostrar minha indignação a respeito de alguns fatos que vêm ao meu conhecimento pela mídia e por meio da minha relação cotidiana com os habitantes deste planeta chamado Terra.
Antes de expor minha repulsa, peço desculpa por não saber qual o pronome de tratamento que devo utilizar com uma entidade de tão grande magnificência, que figura no âmbito da crença humana durante séculos e séculos. Além disso, deixo claro que utilizarei ao longo desta epístola os dois nomes pelos quais as sociedades gregas e romanas se referem a você. Então, começando as lamentações:
Senhor Cupido nos últimos dias li uma notícia que me espantou, uma mulher foi esfaqueada por seu companheiro após uma discussão, o motivo do crime seria uma suspeita de traição. Ela morreu e ele foi preso.
Fiquei pensando se essa é a verdadeira forma de compartilhar com outra pessoa um sentimento tão complexo quanto o amor? Será que a traição é um crime que deve ser pago com a morte? Ou quem sabe, agora exista uma nova normatização divina que decretou que todos os amantes, no sentido amplo da palavra, possuem direitos sobre a manutenção da vida de seus amados?
Não sou a melhor pessoa do mundo para argumentar as razões passionais dos casais. Isso porque não sou um “profissional” neste ramo de atuação, onde os interesses e vontades se misturam as necessidades e abdicações. Assumo que sinto ciúmes das pessoas de quem eu gosto, mas não sei se seria capaz de matar por isso.
Então Eros, aproveito esta carta para questionar os aspectos que, particularmente, acho que os seres humanos não conseguem responder, mas que as divindades devem ter essa capacidade. Por que troca de olhares e insinuações que não chegarão a lugar algum? Para que fotos, se estas serão jogadas no esquecimento, sendo transformadas em vagas lembranças escondidas em algum lugar? Para que sorrisos e momentos juntos que viram lágrimas e sofrimento? Por que perder o tempo tão precioso, desta vida curta, em tentativas frustradas de relacionamentos que acabarão no limbo?
Não sei se este é o real sentimento que eu quero compartilhar com alguém. Ou se este é o destino que quero para mim e para a pessoa de quem eu gosto. Talvez possa ser que falte aos homens e mulheres aprenderem a se amar, pois como li em uma letra de música “... não pode amar mais ninguém, até você se amar”.
Oh filho de Afrodite, assumo que tomei uma atitude muito apocalíptica a partir de um fato isolado, que foi o crime passional, mas compadeço de uma visão cética sobre o amor, nunca acreditando inteiramente em verdades absolutas impostas por reles mortais e nem desacreditando dos argumentos que cada um apresenta. Apenas fico “em cima do muro” aguardando que você tome uma atitude em meu favor e em prol da humanidade. Espero que isso não demore muito, pois a vida é curta e tem pessoas que acham que podem encurtá-la mais ainda.
Sei que sua resposta pode demorar uma hora, um dia, uma semana, um mês ou, quem sabe, uma vida. Mas aguardo o retorno.
Abraço!
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